quarta-feira, 19 de julho de 2017

UMA QUASE ENTREVISTA COM MICHEL T.


"Pode me chamar de presidente", disse Michel. "Ou de ex-presidente", disse o ex-presidente. "Ocupo este cargo desde 2016 por meio de uma manobra, um pneu furado, uma pedalada pelo Jaburu até a casa do Cunha junto com outros amigos comprados. Fui eleito na barra da saia, visto que, na verdade, deve me chamar de presidente", disse o presidente. "No entanto, considerando o momento atual talvez seja preferível, inclusive diante de tantos fatos (nos quais duvido) e para marcar a história política do Brasil, que o senhor me chame de ex-presidente", disse então o ex-presidente. "Porque, afirmo-lhe com convicção, que um presidente é senão alguém que faz as coisas em favor do empresariado? Mas e quando não trabalha para o capital? Quando não compra deputados e senadores e juízes ele converte-se num ex-presidente? Pois então, já que consegui ainda me manter no cargo e exercer a função de golpista, sendo apanágio de cercear os direitos do trabalhador, mesmo a maioria do povo não querendo e maldizendo, em certo sentido eu continuo presidente. Portanto, prefiro que o senhor me chame de presidente", disse o ex-presidente.
(VFM)

Os pássaros rondam
Os altos edifícios 
Para despojarem
Do chão
O clímax suicida.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

MÃO BOBA


Eu quebrei um dedo e me tornei
Presidente das outras unhas roídas.
32 dentes me elegeram para dar de mão 
Beijada todos os anéis de saturno.
Governei amansando o pão
Que o diabo pisou.
Foram meses em que levei tudo,
E com muitas notas,
Para entrar na história
Pianinho.

HAIKAI


Frio, frio, frio,
Passarinho agasalha
Vento no pio.

AFLORISMO


Meia hora da sua atenção acaba com meu frio.

(VFM)

AOS PÉS DOS HOMENS


aos pés dos homens
o lixo espesso da breve dor.
aos pés dos homens
o desprezo úmido dos dias.
aos pés dos homens
o sol de poeira selvagem que
aos pés dos homens
é um piquenique de sombras.

EXTRUSÃO


Eu, expulso do que me é eterno,
Ciente que tudo me abandona,
Eu, morto, exangue, na morta cona, 
Subsisto em carne no inferno.
Cheguei a esta minha vida cruel
Passageiro do câncer e do pranto,
Vômito acre dentro de um antro,
Abençoado por nascer e ser réu.
Não desespero por nada afinal
Se eu tombei alma em pia batismal
No ventre espúrio, todo roto.
Vendido corpo-podre na usura
Masturbei-me na boca mais impura
Minha sombra de cuspe e esgoto.

(VFM)

CORPO A CORPO


derruba teu corpo amargo
aonde o meu se perde.
o caminho é cinzento
e o orvalho um campo largo.
agarra-me dos pés à cabeça,
antes que a memória
fique muda
e nossa sombra desapareça.

OSSO


A minha treva, meu esqueleto
São de poesia e de cianureto.
E os meus falsos olhos
Dois poços de petróleo.
A máscara que me encobre,
Fantasia pútrida de cobre,
Prenhe de ódio e a míngua
É um uivo de flor na língua.
Tudo que sei: o cio que ouço,
é escória presa no calabouço.
A minha sombra é amarga
E a solidão é a minha carga
A roer de saudade meu osso.
(VFM)

LÁ VAI A REFORMA


Foi no apagar das luzes
Que o trabalhador perdeu.
Senadores com capuzes
Dizendo: " Bem feito, se fodeu".
Temer do seu gabinete,
Presidente fictício,
Queimava com a CLT
Acusações e indícios.
"Hora da comemoração!
Já dei fim na Lava-Jato.
Aberta a exploração!
Pobres! Lambam meu sapato!"
"O povo é patético.
Eu mando soltar doleiro
E me faço de ético.
Adeus décimo terceiro!"
"Chega de manifestação",
Pensava o interino.
"Já cumpri a minha missão,
Roubar é meu destino ".
"Não reclame mais, trabalhe!
Marcela agora quer paz.
Não quer que pobre se espalhe,
Falando mal do Satanás".
Passa a reforma passa.
Trabalhista de começo.
No lombo do povo assa
O tronco do retrocesso.
"Ah, chega de privilégio.
A merda os seus direitos.
Comunista é sacrilégio
No chicote eu endireito".
"Só em 2018
Para me pegar no flagra.
Está na hora do coito.
Toma Brasil! Haja viagra!".
(VFM)

Poeminha (in)justamente para o trabalhador


A causa mais justa
O patrão te conta:
O chicote se ajusta
De ponta a ponta.
Cada "ai", sim, custa
Ao nosso erário
E a gente desconta
No seu saldo bancário.
Viva a reforma!
Canta ordinário
E se conforma.
(VFM)

DESPOVOAR


Vamos despovoar os livros
Já que as palavras
Dão pulmões aos manifestos.
Vamos despovoar as despedidas
Já que as esperas são iguais
Nas terríveis ausências.
Vamos despovoar os homens
E deixar livre o coração terrível
Gritando os nomes do esquecimento.
Vamos despovoar os ridículos.
Deixemos vagar as lembranças
Com seu oxigênio fecundo.
Vamos despovoar a força da tristeza.
Desenvolta é a doçura dos beijos
Impressos na adrenalina.
Vamos despovoar os corruptos
E colocar uma nova geografia
Da vida que nos invade.
(VFM)

OS MARINHEIROS


Viajam os marinheiros
Sol adentro, sofrendo,
Ao mar tumultuado
Pelas flores do vento.
Nuvens serpenteiam
Arando o azul dos ares.
Nos braços - estrelas -
Em noites singulares.
O barco, lá vai, soçobra.
Longe o silêncio afronta
Os peixes pelo caminho
Dos marinheiros à sombra.
Sem tempo de regresso,
No comércio, os corpos,
São sonhos sem preço,
Onde navegam mortos.
(VFM)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

COTIDIANO 1


As janelas
Têm privilégios
De olhar primeiro
Os brincos pendurados
No baque da mesa.
Viram elas quando a Noite
Já tinha recolhido
Os copos quebrados,
Bem antes que a Manhã,
Na confusão, chegasse de sol
Ciumenta e esquecida.

(VFM)

terça-feira, 27 de junho de 2017

CISMAS POÉTICAS


(Para Pablo Neruda)

1- Estrelas sabem educar vagalumes?
2- Passarinho pousa os olhos em quantos livros?
3- Como vivem as cores berrantes no pasto?

(VFM)

AFLORISMO


A saudade é um retrato empoeirado.

MINICONTO


O Pintor
No fim da vida pintou com apenas duas cores o seu quadro clínico.
(VFM)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

178 anos de MACHADO DE ASSIS!!!


Essa é uma "História Comum":
Tudo começou "Entre duas Datas": 21 de junho e 29 de setembro. A primeira data foi em uma "Missa de Galo" quando o tristíssimo "Quincas Borba" conheceu "Helena". Ela, seios em flor, ("Vinte anos! Vinte anos!") saí da sua "Crisálida" meninice. Ele, que "Antes da Missa", tinha vindo do "Memorial de Aires", carregava nos ombros aduncos mil "Desencantos", um poeta de "Letra vencida" não sabia mais buscar o amor. No entanto, foi "Helena" "O melhor remédio" e "A chave" para abrir os seus olhos.
Eles começaram a se corresponder por "Papéis avulsos" entre as delongadas falas do "Pobre Cardeal". Não demorou para se apaixonarem e jurarem amor eterno. Versos e mais versos "Tu, só tu, puro amor...". "Helena" era filha do "Quase Ministro" "Dom Casmurro" e de "Iaiá Garcia". Moravam na tradicional "Casa Velha" da cidade. "Quincas Borba" estava acometido de uma "Aurora sem dia", má sina, assim tinha dito "A Cartomante", que iria lhe trazer "Três consequências" as suas relações amorosas.
A primeira foi "O contrato" firmado com "O pai" junto "O escrivão Coimbra" para desposar a bela "Helena", durante "Uma partida" de xadrez. A segunda consequência foi "O empréstimo" que "Quincas Borba" teve que pedir para poder frequentar a casa da sua amada, lhe comprar "O espelho" tão sonhado pela moçoila e futuramente tentar pedir "A mão e a luva" de "Helena". Por fim, "O caso da Vara" briga que arrumou em um bar que "A sereníssima República" tinha o colocado atrás das grades no dia em que seu concorrente tinha feito o pedido de fato de se casar com "Helena".
Estavam aí suas mazelas. Foi por meio de uma "Folha rota" que ele conseguiu contato com a amada para que eles fugissem às escondidas da família e pudessem ter "Felicidade no Casamento". A questão é que não deu. A "Troca de datas" pelos correios atrapalhou tudo. Quando "Quincas Borba" saiu da cadeia e foi correndo para buscar "A melhor noiva", lá estava ela casada com o maldito escrivão, partindo para terras "Ocidentais". Não teve tempo de se despedir e de tentar roubá-la para si. Para "Encher tempo", "Canseiras em vão", o pobre apaixonado ficou a escrever e pensar de "Um sonho e outro sonho" em "Helena".
Após anos e anos, "Tempo de crise", eis que volta ela como "A viúva Sobral". "Helena" incessantemente procurou por "Quincas Borba". Porém, quando descobriu o seu paradeiro, no dia 29 de setembro, lá estava a "Marcha Fúnebre" levando "Um esqueleto", seu "Eterno!" amado, morto em "Um incêndio", para o lugar das "Almas agradecidas" (?). "Helena" nunca mais se casou e visitava o túmulo diariamente do seu poeta.
Como eu disse, era uma "História Comum", uma "História de uma lágrima". E como disse Machado: "Quem conta um conto..." talvez ganhe a "Ressureição".
(VFM)

HAIKAI DE INVERNO


Em tempos de frio
Boca a boca
Cobrir-se de elogio.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Chuvosa


A chuva acaricia devagarinho o rosto da menina pelo vidro. A procissão de lágrimas alheias tinge aquela face trancada em solidão, enquanto os guardas chuvas lá fora brincam pela calçada de forma comovente ao passo dos pés que se inundam de incompreensão.

HAIKAI


Eu, morto de cansaço,
Flores e lágrimas,
No caixão do seu abraço.
(VFM)

Dia dos namorados



- Michel! Nesse golpe não caio mais. Estou cansada de ganhar panelas.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

FOFOCAS DO JABURU


Não sabe a Marcela que quem deita com ela na cama está em maus lençóis.
(VFM)

HAIKAI


Pobre do nosso país!
Não construímos Pinóquio 
Mas somente nariz.

(VFM)

AFLORISMO


É só falar de amor que meu coração passa batido.
(VFM)

AFLORISMO


Cair no sono também quebra sonhos.

HAIKAI


Não se queixe.
Melhor fisgado de amor
Do que o peixe.

(VFM)

Quadra


Colho o que planto,
Mas não é trevo.
Tudo que levo 
É flor do pranto.

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Marcela: - Estou querendo ficar Fora, Temer, do que está acontecendo.
Temer: - Isso é uma indireta?
Marcela: Quer uma direta já?

(VFM)

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Camisa "A culpa não é minha: eu votei no Aécio" já virou pó.
(VFM)

IMPEACHMENTBERFEST


De acordo com o Temer, a festinha do golpe foi OFF OFF, pois era tudo na faixa.
(VFM)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

HINO NACIONAL VERDE AMARELO


Ouviram do golpista as falas ácidas
De um povo triste ao golpe relutante
E o sol da iniquidade sobre o estúpido
Brilhou na sua faixa de farsante.

Se o senhor quer desigualdade
Conseguimos derrubá-lo com braço forte
Não custeio esse golpe
A reforma vai levar o povo à morte.
Ó patriarca sua inhaca
Não se salve!
Brasil, abismo imenso, caso crítico
Contraventor na folgança a justiça esquece
Se a corrupção, filho teu, sonho típico
De quem tem um bom juiz e agradece.
Flagrante em sua própria avareza
És Otelo, és caixa forte, roubando até o osso
E o teu tesouro reflete a tua safadeza

Greve Marcada!
Golpista vil
Fora do meu Brasil
Ó luta armada!
Dos ricos safados és tola mãe gentil
Pátria calada
Não mais, Brasil!

II

Dissimulado eu sei que mente Temer bandido
Ao querer reformar com ajuda do submundo
Fatura, ó golpista, ladrão da féria
Ignorado ao sol até o fim do mundo.
Do que a bezerra mais provida
Teus medonhos dedos usufruindo nos bastidores
"Nossos escroques têm boa vida"
"Nossas dívidas, no rateio, mais credores".
Ó palhaçada
Tão calculada
Salve! Salve!
Brasil, de políticos - inferno frívolo
O ignaro que sustenta o estelionato
E briga o serdes ouro dessa fórmula
Faz no futuro o pior do nosso passado.
Das as injustiças é melhor o boicote
Verás no teu Congresso maioria absoluta
Sem Temer, traidor, vá embora seu velhote
Terra arrasada
Haja Estomazil
És tu, Brasil
Ó putaria extravasada!
Aos filhos pobres dá-lhes colo, ó mãe gentil
Fora Temer
Brasil!


(Vinícius Magalhães)

MINICONTO


NetFitness

- Qual a sua série favorita?
- Três lanches de escadas para fortalecer o glúten.

(VFM)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

AFLORISMO


Hoje preciso destronar a saudade, pois uma nova lágrima já coroa meu rosto.

(VFM)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Sambinha modesto

Tributo aos 80 anos sem Noel Rosa (1910/1937). Salve, salve o poeta da Vila!
do morro 
a poesia descamba
pela cidade.
o povo
na corda bamba
da felicidade.
lá vai o patrão,
bolso cheio, ouvidos moucos,
passando alheio
à situação.
do morro
a poesia descamba
pelo violão.
socorro!
tem muito samba
no suor
do coração.
(VFM)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

QUADRINHA GOLPISTA


Lá vem a reforma trabalhista.
Há quem queira da Previdência.
O empresário paga a vista
O Temer com antecedência.

(VFM) #ReformaNão

terça-feira, 25 de abril de 2017

QUERO VER ABRIL


P/ Carlos Alberto Magalhães e Leonardo Magalhães

Quero ver abril
Correr sua infância
ariana, chifres taurinos
Chegando aos feriados.
Papai ao final do rebanho,
Levantando na terra
O filho distanciadamente
Dos anos.
Quero ver abril
Falar de Jesus
Em atrozes poemas
E dias depois
Beijar na boca-da
esfinge velhos testamentos.
Quero ver abril
Comemorar meus anos
Ainda sobreviventes
Com a fantasia da mocidade,
Chorando 2 meses
Com os olhos
Em Maio
E
Em búzios.

MINICONTO INCONFIDENTES


É só chegar o feriado que Tiradentes fica com a corda toda.

(VFM)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

Novas expressões políticas populares


1- Um olho no bolso, outro na empreitada.
2- Amigos, amigos, empreiteiros à parte.
3- Um dia da farsa, outro do delator.

(VFM)

terça-feira, 11 de abril de 2017

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DIA DO JORNALISTA


Saiu para a labuta da reportagem, chapéu na cabeça, coçando o nariz de cera. Tomou seu suplemento diário, abrindo aspas e um sorriso, enquanto arrumava o bigode antes da entrevista. Pigarreou um briefing de maços atrás no tempo em que olhava a última chamada no celular. Tudo para ele parecia muito clichê. Como não tinha tomado café, sentou para comer uma notícia com cobertura de ontem, bebendo um cálido artigo. Logo lembrou que tinha deixado a janela aberta e que com a chuva que se diagramava no céu o clipping pendurado no varal iria molhar. Mas não tinha jeito. O seu deadline já cantava no alto das igrejas e nas sirenes das autoridades.
Pagou o jabá antes do fechamento dos informes. Correu pelas ruas sem muita legenda, mas de súbito aquela dor na coluna - crônica! - voltou a lhe atazanar, tudo pelo exagero de cruzar as informações entre teclado e tela e cadeira e plantão. Tomou um tabloide para aliviar a dor e lembrou que devia ter levado o crédito pela noite de ontem no jornal quando viu pelo espelho a nova editora-chefe - fonte dos seus suspiros.
Porém, o que ficou divulgado foi que o seu expediente não lhe permitia furos e atrasos. Mas naquele dia ele tinha achado o gancho. Tirou da gaveta aquela velha manchete, matéria fria, que continha todo o seu mailing e intento. Sem muitas perguntas e respostas, quando ela estava encostada na sua editoria, de olho plantado em releases e personagens de cosméticos, ele, em off, a convidou para um particular pingue-pongue. Ela, na retranca, não quis repercutir aquele bate-papo, deixando em stand by, dizendo: "Lead com o fato de que a realidade tem mais caracteres do que sua pauta". Porém, antes de fechar o texto final daquela situação, ela informou que daria para o ocorrido novo título: sua demissão!

(VFM)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Odebrecht depositou propina para o █████ em Nova York porque ele é merecedor também de uma estátua da Liberdade.

(VFM)

sexta-feira, 31 de março de 2017

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Essa reforma da Previdência é do arco da velha.

MINICONTO


Em um aplicativo de paquera:
- Ei, tudo bem?
- Tudo!
- O que vc faz?
- Sou recepcionista terceirizada.
- Foi golpe ou impeachment?
- Golpe!
- Vamos então conversar fora Temer daqui?

terça-feira, 28 de março de 2017

quinta-feira, 23 de março de 2017

quarta-feira, 22 de março de 2017

sexta-feira, 10 de março de 2017

DESCOBERTA


Não acreditava nesses antigos provérbios, os quais vaticinavam que ouvir sabiá é dar fruto para nosso coração incerto. Nessas de esfregar os olhos para moer os sonhos empedrados, percebi que um certo perfume ainda pendurado no bigode mudava a paisagem. Não tinha sido o excesso de álcool despejado em palavra seca, muito menos os cigarros cintilando em noite escura, mas algo mais cantado pela história, com certa vergonha entre livros. Poderia diagnosticar como um delírio, que a noite de ontem insistia em se negar passar e reafirmar que durante um tempo, ou muito tempo, podemos ser felizes?! Estou certo que o medo nos toca diante dessa incerteza e dessa gota de possibilidade. Parei para pensar sobre o fato e pude reconhecer os ardis daquela bela sombra que me amparou nos braços e soube cobrar em doces tributos as exigências do encanto.
Foi simples para o tempo, mas desesperadamente único para mim. A cidade em que vivo me deu o itinerário certo para arruinar meus receios e ocultar minha impassibilidade. Pude visitar menos aborrecido, de carona com uma nuvem mensageira, os segredos que ela, sim, ela, habitada de sentimentos e intenções escusas, transeunte da vontade, medindo cada caminho, cada metro quadrado, cada corpo, com primor de um laço, os seus olhos de bússola.
O encontro foi por acaso. Uma trombada ao virar a esquina, uma pergunta de que horas são, um com licença no supermercado, um empresta o isqueiro no bar do bairro. Daí não escondemos conversa e fomos empurrando o tédio para os ratos insones. O dia foi se encurtando e a noite perdeu sua quietude, nomeando nossos desejos em terremotos. A audácia prazenteira me tomou conta e matamos, boca a boca, os ecos do abismo. Hoje, após sua saída abrupta - atraso ao trabalho -, sem me deixar promessas, me atentei que ela, depois de tentar em vão ressuscitar outros tempos, somente ela, me encheu a boca de mantimentos, misturando querosene em meu sangue, essas coisas de batizar o coração. Ela, invisível ao partir, visível ao que ficou, esqueceu sobre a cama, estendido no lençol amarfanhado, o amor.

(VFM)

quarta-feira, 8 de março de 2017

E agora, Maria?

PARA A LUTA DE HOJE! 8 DE MARÇO!

E agora, Maria?
a greve acabou,
o vestido rasgou,
a filha sumiu
de noite num show,
E agora, Maria?
E agora, à mercê?
Você que tem fome
e cuida do filho dos outros,
você que vê novela,
que reclama, faz promessa?
E agora, Maria?
Está sem marido,
está sem emprego,
está sem documentos,
já não pode sofrer,
já não pode amar,
gozar já não pode,
o coração esfriou,
o seu direito não veio,
o choro não veio,
o bagulho não veio,
não se vê alegria,
e tudo findou,
e tudo morreu,
e todos se foram,
E agora, Maria?
E agora, Maria?
Vende o doce corpo
na noite terçã,
apanha e sonha
com casa nova,
com sua família,
sua independência,
seu sapato de luta,
seus seios desrespeitados,
sua desilusão,
seu reconhecimento – senhora?
Com desejo nas mãos
quer a liberdade,
mas a liberdade não existe;
quer conhecer o mundo,
mas o mundo anda caduco,
quer ir ao salão,
mas unhas não há mais.
Maria, você tem hora?
Se você fosse forte,
se você resistisse,
se você tivesse previdência
e gritasse fora Temer,
se você sorrisse,
se tivesse panelas,
se você não fosse estranha,
se você mudasse de vida,
mas você é mulher,
você tem alma, Maria!
Caminha entre o povo
qual sombra derramada,
sem árvore e medicamentos,
sem proteção e espelho
para ver sua face perdida,
sem palavras calmas
que possam lhe dar esperanças,
você tropeça, Maria!
Maria, para qual destino?
(VFM)

sexta-feira, 3 de março de 2017

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Conforme NEVES, Aécio (2017, p.45), após mais uma citação na Lava Jato, isso já lhe possibilita entrar nos anais da ABNT e ganhar uma dissertação em Furnas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MICROCRÔNICA POLÍTICA


Avião com Aécio faz pouso de emergência. Eu sempre soube que Aécio era aviãozinho.
(VFM)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

UMA CRÔNICA INJUSTA


Cá estamos. Eleito hoje para presidir a Comissão de Constituição e Justiça Edson Lobão! A senhora Justiça, nossa chapeuzinho vermelho, que hoje já fuma cigarro contrabandeado, cheira, bebe e por uns trocados se faz de acompanhante de luxo, não obedece o caminho da probidade, segue ela pelo bosque do Jaburu ao encontro do canídeo faminto.
Enquanto o cão, animal de confiança do nosso antiquário político e imorrível Sarney, sorri pela eleição, Lobão se pavoneia pela posição. Vemos já acuados o canicho olhar suas citações na Lava Jato como um bicho empanturrado de propinas vendo se distanciar, cada vez mais, as denúncias contra ele, que pastam a caminho de lindo arquivo.
Já sabemos que a Constituição já foi mordida. Agora ela rumina na boca dos golpistas. O que nos impressiona é que a cada dia um espetáculo se faz valer na imprensa. O covil está em festa e estamos pagando caro para ver cada cena. Não podemos esquecer que nas costas do Cérbero Lobão está o pãozinho de queijo AnastAzia. Para nossa surpresa, essa tal Comissão vai decidir sobre a votação do cargo de Ministro do Alexandre de Moraes - do PSDB!. Não é coincidência termos o PMDB e o mineiro tucano vigiando a Comissão caprina como um velocino de ouro.
Convenhamos, a corrupção não larga o osso e muito homem-bicho adora deixar se morder. Assim, de longe observamos os lobos e lobões espalhados pelo país roendo a tíbia do povo. Somos aquela ovelha mais fraca no rebanho que deve morrer para privilégio de alguns. Bem como a senhora Justiça, está tudo tão descarado e descarnado que é melhor também vendarmo-nos. Quem sabe assim dói menos. Durante esse tempo, vão os lobões contando os inúmeros carneirinhos dentro das suas peles de cordeiro da Louis Vuitton. Bora correr que se não o bicho pega. Amanhã vem mais!
(VFM)

MICROCRÔNICA DA REFORMA


Temer: Filho, como andam os estudos?
Michelzinho: Bem Médio.

(VFM)

MICROCRÔNICA CARIOCA


O governo do Rio trocou o Pezão pelas mãos. Pezão frio.

(VFM)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

LÚCIA E LUCAS

Lúcia levanta letárgica, linda, libanesa, longilínea, leve lordose lombar, leva Lucas, louro, levado, lonjura: laboratório! Limpando loucamente lágrima, Lucas linguarudo lamentou ladino: “Lá?!. Lúcia, lacônica, lhana: “Lógico!”. Lucas lambeu laticínio – leite – litro, lambuzou-se. Limpou. Lanchou. Logo laçado, largou ladainhas.
Lúcia ligou lambreta lustrada. Lampejava. Lufava. Ladearam ladeiras, lombadas ladrilhadas, longo labirinto. Letreiro luzia local. Locutora: “Lucas!”. Lépido, lançou-se. Lúcia lia lorotas. Lucas liberado, lânguido, laparoto largava lauda, lembrete lapijado. Lúcia leu letras, linguagem, leiga: (Latim?) ‘Lombriga, lúpus, leucemia!’. "Lascou!". Lúcia legitimou lengalenga laboratorial.
Lúcia, ligeira, largou Lucas, lanchonete: “líquido light: limonada, laranjada!”, lecionou. Lasciva, lembrou, lapso: labuta! Luzes, luminosidade lilás, libertinagem. Local: Lupanar! Lenocínio! Lisonjeira lista, longa, latitudinal, lotada: Lordes, legistas, leprosos, ladrões, lésbicas, lázaros, larápios, lojistas, lavradores... Laia. Lúcia lograva longeva libido. Loba! Leoa! Lúbrica! Lingerie listrada, lycra, luvas, lurex, leque, lantejoulas lucilam; lençol, linho, lã luxuriosa; lubrificantes, lances, loucuras labiais, labareda lingual. Lucrativo labor. Lucra. Locupletava lazer: lojas, loção, lote, latifúndios.
Lúcia, livre, liberta, límpida. Leandro liga. Lacaio. Limusine. Libam licores, lisérgicos. Levitava... Louca, lábil, ludibria, luta, livra-se lesta. Lema: lar! Lobrigava... Lucas longe, lendo livro lírico, literatura. Lucubrava. Lúcia lambiscou legumes, lavou-se lentamente, linfa, lavabo. Lucubrava leito, lona. Lá longe lua lenitiva.
Lúcia, lúcida, levanta lalofóbica. “Lucas! Lucas!”. Lacuna... Lucas localizado lívido, lasso, linear, liquidado, literalmente. Letomaníaco! Limou-se letalmente. Langorosa, lacerada, lúgubre, Lúcia lacrimava lagoa (Lodo? Lama?). Lúcia levantou lápide. Lacrou Lucas: lírios, lótus. Lúcia louva, liturgia. Luto! Lúcia lamuria legenda, legado: “Libertas! Love!”.
“Logo-logo, Lúcia, levo-te”, latiu Lúcifer.

(VFM)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

PARÊNTESIS




Abro parêntesis para escrever uma história assim como quem abre a porta de casa, deixa a frase entrar e vê que alguém possivelmente lhe espera. Dentro, a força do silêncio é um episódio do infortúnio adornando a mesa de jantar. Abro parêntesis para me despir. Abro os olhos e vejo o infeliz anúncio no rosto que outrora me amou. Pasmo. De boca aberta, voz trêmula, engulo as respostas, mas não pergunto se há resquícios em sua memória para que fique. Não quero alardear a sombra que parte os objetos e fecunda a geografia dos cômodos. Abro parêntesis e abro os braços na expectativa de poder contar com mais um abraço, o qual estabelecemos como nossa chegada e não de despedida. Nenhum sorriso se abre e não posso ver seu canino sobressalente que marcava meu pescoço cômico. Vejo que está ao lado do nosso retrato no ângulo exato de antiga felicidade. Queria roubar essa imagem e jogá-la na sala. Fica tudo intacto. Em vão empilho as palavras como a louça suja, assumindo minha irresponsabilidade temporária. Abro parêntesis na espera que caibam, mesmo que encolhidas, nossas falas de “para sempre” numa cortês piedade. Abro parêntesis. Esse quase círculo talvez seja um possível reparo ao meu ser desolado. Desenho com a caneta minhas habituais dúvidas, enchendo o papel de porquês. A esta hora você deve estar abrindo um vinho e sangrando no copo uma terrível mágoa. Qual porção dele me habita? A noite se apura. O que você conversa com a mão, o vento, o copo, a desatinada língua? Quando estiver tudo vazio, igual estou, valeria uma sobremesa do passado? Revezaríamos a dor? Abro parêntesis bem como a geladeira anedótica, imaginando suas últimas sílabas frias. O semáforo se abre indicando que podia passar e se salvar de mim em um mergulho perdido nessa metrópole. Abre-se uma ferida de grande gravidade, e eu ainda não sei o desfecho. Gostaria de me abrir a algo novo, mas como se tudo o que vivi contigo foi novidade? Até quando sustentarei esse parêntesis escancarado, ostentando meu peito nu ao desespero? Não me abro ao sexo, encosto-me nas paredes frias para acalmar meu desejo assassino e mexo no cesto de roupas sujas, pois nele deve restar uma toalha mofada a qual guarda algum pelo do seu púbis. Isso bastaria? A tristeza já não se esconde no meu rosto magro de lavrador e falso poeta. O relógio se rebela, deitando seus ponteiros na minha hibernação inútil. O tempo se alimenta. Abro parêntesis e o chuveiro. A água que cai me abandona também pelo ralo por mais que me demore. Ninguém há de entender o cinzeiro cheio de cinzas de constrangimento, meus dedos amarelados, inclementes e sem indiscrição, empregando sua ausência. Ficam as coisas largadas. O mato a crescer impunemente no jardim da carne viva. A esperança só a expiar. O sono segue sem sossego. Eu que nunca pensei novamente em orar, ensaio um consoo ao desamparo. Todo fim carrega sua imortalidade. Abro parêntesis numa solenidade irreal. Quisera eu não ser assim. Os dias avançam sob um sol esquartejado e luas cansadas, prolongando meu sofrimento febril. As lágrimas abrem trilhas insólitas sobre meu corpo e sigo colecionando-as. Convoco os amigos para ouvir as mesmas frases langorosas. “O amor é um prêmio herdado das loucuras.” Vou preenchendo dentro do parêntesis o árduo trabalho dos sonhos livres de um condenado. Queria me animar pelos adeuses e entender que pode ser um nobre gesto. Mas quem se anima ao estar sentenciado? Somos escravos do convívio, da carência e ingenuamente dizemos que não, que queremos a solidão. Batalho agora com o silêncio como um fantasma da madrugada. Abro parêntesis para guardar momentos e histórias. O passado subterrâneo sempre brota nas emoções. Abro parêntesis para registrar o destino que se bifurca nas caminhadas. Ocupamos espaços na tentativa de imobilizar o coração desguarnecido. Desacreditamos expondo nossos medos. Quem sabe nesse embalo outro amor virá? Escuto minha impotência e, no pulmão já sem fôlego, não diz o seu nome, fica preso nas barbas dos anciões. O muito paciente se desperdiça. A embriaguez não me diz fatos novos. A vida é um sonâmbulo que se esgota. A cabeça se debruça na atmosfera turbulenta do travesseiro, incentivando-me a criar outros problemas por cima da camisa. Abro parêntesis para inventar um novo mundo. Era nossos lugares toda a cidade. Vou compartilhar o pão e a música só para ouvir um continue e me martirizar no amanhã. Fecho parêntesis já que também é sua função a companhia inesgotável. Sei que não a verei mais. Fecho a porta e janelas no intuito de distinguir a solidão arranhando o assoalho criminoso. O silêncio vai amanhecer, enquanto a inquietude se relata. O tempo vai proferir seu nome ainda, a saliva embebe salubre as circunstâncias. Cá estou eu perdido no meu juízo, tentando me preparar para o deserto tenebroso que passa e fica. Fecho parêntesis (já disse isso). Deixo debaixo das páginas a saudade para alguma voz abrir, como holofote, um outro espelho em que possamos nos reconhecer e novamente se apaixonar. Fecho parêntesis.

(VFM)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

2017


Eu já passei de ano algumas vezes. Confesso que tive dificuldades e as notas não passaram de muito MiMiMi. Lá longe deixei meus pensamentos e aqui agora levo pequenos sonhos. Quando pedem para ver meu histórico muitos se assustam com a corda bamba e meus atos aventureiros e minhas derrotas e meus desamores.
Com ar professoral alguns me disseram dos erros e possíveis potenciais. Eu escutava pensando nos diminutos planetas sem tanta vida. Mamãe orava e batia, batia e batia na máquina de me fazer correto. Sempre achei que também os tapas pudessem ser aplausos. Chorava prometendo que ano que vem a vida erraria muito menos comigo e que a opção certa que faria do que queria é somente um nó para o fôlego demasiado que tenho de sobreviver mais um ano.